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X-Pirralhos

Seu filho pode ser um mutante!
Apesar de curtir quadrinhos de super-heróis, nunca levei muito a sério suas “possibilidades extremas”. Mas de uns tempos para cá tenho revisto meus conceitos e estou considerando a possibilidade de que mutantes possam existir, com todos os seus superpoderes.
Mas por que isso, de repente assim? Ah… É a paternidade. Meu pimpolho está me fazendo perder os cabelos de tanto trabalho que me dá. Mas seu comportamento está se mostrando estranho, e me chamado a atenção. Por isso acredito piamente que ele esteja manifestando poderes especiais. E digo mais. Isso pode estar ocorrendo em sua casa, também!
Duvida? Pois se você é pai, responda as perguntas abaixo:
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Ele desloca móveis e outros objetos pesados com uma facilidade inesperada?
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Mesmo após sofrer algum acidente, ele não parece se importar muito. Aliás, ele parece se recuperar de pancadas com espantosa rapidez?
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Ele às vezes some como num passe de mágica?
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Quando você tenta alcançá-lo, ele se desloca velozmente e você se cansa antes de alcançá-lo?
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Se você planeja algo como vaciná-lo, levá-lo ao médico ou alguma outra atividade da qual ele não goste, justamente ele dá um jeito de dificultar as coisas, como se lesse a sua mente?
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Ele aparece ao lado dos pais como se fosse teletransportado, principalmente quando eles tentam namorar um pouco dentro de ambientes fechados?
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Ele encontra o que não deve encontrar, por melhor que esteja escondido, como se tivesse visão de raios-X?
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Ele alcança objetos que, teoricamente, estão fora de seu alcance, como se ele pudesse esticar os seus membros?
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Ele tem estranhos poderes de persuasão, convencendo você a fazer certas coisas que originalmente você não planejava fazer?
Se você respondeu “sim” a pelo menos uma destas perguntas, então seu filho pode ser um mutante! Eu já me convenci de que o meu filho tem super poderes, já que ele preenche TODAS as características acima descritas. Estaríamos diante do surgimento de uma nova raça, o Homo Superior? Espero que ele não resolva usar os seus poderes para o mal, senão ele vai levar umas chineladas. Só que vou precisar de uma havaiana de adamantium quando eu subir pelas paredes e ficar verde de raiva.
Histórias dos Quadrinhos que Não Estão no Gibi – Parte 2

Dando continuidade ao artigo anterior (se ainda não leu, manda ver), aqui na “Terra Brasilis” há um livro equivalente ao do Gerard Jones que explora a formação do mercado editorial dos quadrinhos brasileiros, abrangendo o período dos anos 30 até idos do início do Regime Militar, de autoria do jornalista Gonçalo Júnior. “A Guerra dos Gibis” é um livro fundamental e indispensável para qualquer um que queira conhecer a história e – porque não – os problemas da indústria de revistas em quadrinhos, popularmente conhecidos entre nós como “gibis”. Como Jones, Gonçalo usa um personagem e sua história como fio condutor: Adolfo Aizen. O então jovem repórter de O Globo tem a ideia de trazer os quadrinhos publicados nos jornais dos EUA , levando-a inicialmente ao seu patrão, Roberto Marinho, que a descarta, e este por fim não desiste e acaba criando “O Suplemento Infantil” para o jornal pós-Revolução de 30, “A Nação”. Essa foi a semente para o pequeno império editorial que o jovem – imigrante e descendente de judeus russos como seus colegas de ofício americanos – criaria anos depois com a fundação da EBAL – Editora Brasil América. E o mais irônico que esse império foi criado sob uma mentira, e uma contravenção já que sua certidão de nascimento brasileira era falsa, e até 2002 a Constituição Brasileira vetava a participação de estrangeiros como sócios ou proprietários em veículos de comunicação, e por toda sua vida Aizen carregou essa espada pendurada sobre o pescoço, uma informação que poderia ser usada por algum inimigo. E inimigos não faltaram. E porque acham que o título do livro é “A guerra dos Gibis”?
Aizen – e os demais editores de quadrinhos e tiras – enfrentaram várias guerras. A primeira delas foi contra seu ex-patrão, Roberto Marinho, que se tocou da bosta que fez ao descartar a ideia dos quadrinhos que Aizen lhe levara de mão beijada. Vendo que o antigo empregado conseguira bons contratos com as distribuidoras de material produzido pelas editoras americanas – os syndicates – e seus suplementos se tornaram revistas avulsas bem vendidas junto ao público infanto-juvenil, Marinho quis abocanhar esta fatia do mercado, e se tornou o primeiro concorrente sério dos quadrinhos de Aizen ao criar O Globo Juvenil, que seria seguido anos depois pelos Diários Associados de Assis Chateaubriant, que criou a revista “O Gury”.
Nesse meio tempo, as opiniões do clero já teciam pesadas críticas contra os quadrinhos importados que eram publicados nessas revistas, sendo o início da ideia geral de que quadrinhos seriam prejudiciais a educação das crianças, ideia ainda hoje encravada no nosso inconsciente coletivo e que vez por outra ainda encontra eco em algum veiculo de comunicação. Tais críticas recrudesceriam a partir dos anos 40, muitas motivadas mais por disputas editoriais entre concorrentes do que em preocupação legítima pelo eventual dano didático que os “gibis” poderiam causar à juventude. Como exemplo, a campanha que o “Diário de Notícias”, de Orlando Dantas, para afetar seu concorrente Roberto Marinho. Mas este discurso encontrou eco nos setores mais conservadores da sociedade, que passaram a atacar os quadrinhos. Se “Chatô” e Roberto Marinho reagiam com campanhas publicitárias ou editoriais agressivos, Adolfo preferia tentar convencer os críticos dos benefícios dos quadrinhos, inclusive publicando revistas com cunho educacional ou retratando personagens da história nacional, incluindo figuras eclesiásticas. Em defesa dos quadrinhos surgiram vozes improváveis, como o do intelectual Gilberto Freyre, e em seu ataque outras figuras carimbadas, como os jornalista Carlos Lacerda e Samuel Wainer, inimigos declarados de Roberto Marinho, e que criticavam os gibis para atingir indiretamente Marinho, mas cujas críticas ressoavam nos meios educacionais, influenciando pais, professores e educadores a se engajarem contra os gibis.
Além das críticas ao veículo em si, outra frente de batalha contra as editoras era a que exigia uma “reserva de mercado” de produto nacional, já que a opção mais prática e barata de importar o material estrangeiro já pronto seduzia os editores, que preferiam este material em detrimento a produzir o seu próprio o que de certa forma criou um problema e paradigma que é seguido até os dias de hoje pelas editoras. Se Aizen foi um pioneiro ao trazer as tiras e os comics americanos para nossa terrinha, ainda hoje o quadrinho nacional tem pouca expressão frente a concorrência estrangeira, com raras exceções.
A pesquisa de Gonçalo envolvendo estas décadas de mercado editorial nos trás ainda a ascensão e queda das editoras de histórias de horror paulistas, a importação da paranoia anti-quadrinhos dos EUA nos anos 50, dá uma pincelada rápida na censura sobre os quadrinhos pornográficos, a tentativa dos quadrinistas nacionais em criar uma reserva de mercado para garantir uma produção nacional, sem sucesso. Mesmo mantendo um rigor jornalístico na narrativa, esta não se torna chata ou enfadonha como poderia se tornar um texto dessa natureza, que por vezes mais se parece com um tratado acadêmico tal o formalismo com que a linguagem se cerca. O texto de Gonçalo é melífluo e qualquer amante dos quadrinhos se deliciará com as histórias que ele tem para contar. Para quem quiser conhecer a prosa de Gonçalo Junior, ele costumava bater ponto no site Bigorna. Curiosamente há um de seus artigos que critica justamente a capa do livro “Homens do Amanhã”, que mencionei na primeira metade desse artigo.
Lançado em 2004, os leitores desse livro há anos anseiam por uma continuação desse trabalho, uma espécie de “Guerra dos Gibis 2”. E isso se tornou realidade recentemente, pois está para ser lançado nos próximos dias o livro “Maria Erótica e o Clamor do Sexo – Imprensa, Pornografia, comunismo e censura na ditadura militar – 1964-1985”, que pode ser considerada uma continuação de “A Guerra dos Gibis”, pois aborda a censura aos quadrinhos no período imediatamente posterior ao abordado naquele livro. Espero em breve tê-lo em mãos para comentar com os frequentadores dessa blodega.
Update 1: Para quem quiser dar uma conferida, quase todo o conteúdo desse livro está disponível no Google Livros
Update 2: Como prometi, comentei “A Guerra dos Gibis 2″ neste outro post aqui
Histórias dos Quadrinhos que Não estão no Gibi – Parte 1

Quem realmente curte história em quadrinhos e os acompanha há um bom tempo conhece, por vias diretas ou indiretas, alguns aspectos e detalhes do mundo editorial, de como esta arte evoluiu ao longo das décadas, deixando de ser diversão descartável para adquirir status de arte respeitável. Mas para aqueles que não conhecem a história ou são curiosos por mais detalhes sórdidos, por assim dizer, há bons livros no mercado que abordam competentemente o tema. Destaco dois títulos em especial, os quais já li, mesmo que tardiamente, mas que poderia rotular de “obrigatórios” para todo amante da arte sequencial que quer se aprofundar mais no assunto.
Primeiro, falemos da origem de tudo, que é os Estados unidos, onde a indústria dos quadrinhos se tornou uma peça importante na bilionária estrutura dos conglomerados que produzem entretenimento. O ex-roteirista de quadrinhos Gerard Jones caiu em campo e executou uma senhora pesquisa para desvendar a aurora das editoras. E correndo contra o tempo, já que como bem disse Stan Lee, muitos dos que testemunharam esse início já beiravam idades avançadas, respeitáveis senhores octogenários, nonagenários e até centenários que poderiam levar muita informação para o túmulo.
Mas Gerard Jones conseguiu fazer uma excelente reconstituição da cena do crime em seu livro “Homens do Amanhã”. Mesmo abordando a história até praticamente os anos 00, a foco principal é entre os anos 30 e 50. Para contar a gênese dessa indústria bilionária, o fio condutor da narrativa é um assunto até hoje espinhoso no meio editorial: a luta pelos direitos do personagem Super-Homem, o primeiro super-herói e fulcro de uma das maiores editoras do gênero, a atual DC Comics, que faz parte do conglomerado AOL-Time-Warner. Originalmente criado por dois jovens judeus, Jerry Siegel e Joe Shuster, o personagem rendeu uma fortuna aos editores da DC, enquanto os criadores lutavam por migalhas na justiça. Partindo de um manifesto à imprensa escrito por Siegel nos anos 70, quando ele e seu colega mal ganhavam o suficiente para se manter enquanto a Time-Warner se preparava para produzir “Superman-O Filme”, Gerard volta bem no passado, para contextualizar a história, tecendo detalhes sobre a geração de judeus imigrantes que tomou de assalto os bairros pobres das grandes cidades americanas. Isso é importante, pois os grandes criadores, desenhistas e editores que viriam a ser tornarem famosos eram, em sua grande maioria, da geração de judeus que se estabeleceu nos States naqueles anos difíceis. E ao reconstituir a história de muitos desses personagens, se descobre detalhes absurdos, bizarros e por vezes nem um pouco lisonjeiro à “lenda pessoal” de muitos desses ícones.
O absurdo maior é saber que o alicerce das editoras e distribuidoras de quadrinhos que se tornaram gigantes editoriais foi cimentado com pornografia, literatura apelativa, contrabando de bebidas, financiamento do crime organizado, tapetão financeiro em sócios ou proprietários de empresas menores, processos judiciais por acusação de plágio ou pura e simplesmente pilantragem e safadeza. Não era incomum um dos fundadores da futura DC, Harry Donenfeld, estar associado a figuras como os gangsteres Frank Costello ou Luck Luciano. E era prática notória um empresário fazer pressão indireta em um concorrente através de seus credores, até que quebre e seja obrigado a vender seu negócio.
Do outro lado dessa equação estava um grupo de jovens socialmente desajustados cujo maior interesse comum eram as histórias de ficção científica de revistas como “Amazing Stories”., que criaram os primeiros “famdom’s”. Eles eram o que poderia se chamar de “nerds” ou “geeks”, caso os termos existissem naqueles tempos. Essa força criativa e jovem se tornou a mão-de-obra necessária às editoras, quando surgiu o promissor negócio de quadrinhos de super-heróis, e essa rapaziada devidamente influenciada pela literatura fantástica e as pulp magazine dos anos 30 começou a criar os heróis da chamada “Era de Ouro” dos quadrinhos, sendo o divisor e águas um personagem diversas vezes recusado e aproveitado quase que de improviso para protagonizar a revista “Action Comics” 1, um tal de Super-Homem. Depois de seu sucesso, uma enxurrada de super-heróis com superpoderes encheu as revistinhas, que eram vendidas aos milhões.
Enquanto desenha um retrato dessa época inicial do mundo dos super-heróis, Jones começa a destrinchar também a personalidade de alguns de seus criadores. Se Joe Shuster e Jerry Siegel eram tímidos e de uma ingenuidade enorme, outros como Bill Kane tinham malandragem de sobra. Este costumava terceirizar boa parte de seu trabalho a artistas anônimos, recebendo o crédito por todo o trabalho. O próprio Bill Finger, co-criador do Batman, em vida nunca recebeu o devido reconhecimento por sua participação nas histórias iniciais do Homem-Morcego. Kane também usou das armas que seus patrões costumavam usar, forçando a DC a renegociar seu contrato sob a alegação de que era de menor quando o assinara. Outros personagens foram pintados com tintas fortes, como Jack Liebowitz, o manda-chuva da DC durante décadas, responsável por dar um verniz sério e respeitável ao empreendimento e de manter com mão de ferro os direitos sobre os personagens criados para a editora. Mort Weisinger é visto como um manipulador, carrasco de seus subalternos e um malandro capaz de queimar o próprio amigo para lhe tomar uma função.
Gerard Jones acompanha com lupa esta indústria, desde o seu nascimento, passando pela II Guerra Mundial e o surgimento de revistas de Terror e Policiais, que temporariamente desbancaram os Super-Heróis da preferência popular até que a paranóia dos anos 50 trouxesse à tona as teorias do psicólogo Fredric Wertham e a sua “Sedução do Inocente”, colocando os quadrinhos nos bancos dos réus. Testemunha também surgir uma nova geração de super-heróis anos depois, tanto na DC quanto na concorrência, principalmente os que saem da mente de um rapaz que estava meio que por acaso nessas editoras e que atendia pelo nome de Stanley Lieber, mas que assinava suas criações como Stan Lee. O mercado muda, e o que era uma empresa fechada e familiar abre seu capital, e em poucos anos a DC se torna parte do grupo Time-Warner, chegando dessa maneira os nossos dias e sobrevivendo à perseguição de “especialistas” que insistiam que quadrinhos tornam os jovens mais tapados ou criminosos. Nesse ínterim, Siegel e Shuster processam a DC várias vezes, mas sem sucesso, até que o apelo mencionado no início do livro acaba caindo no conhecimento público, o que causa um certo alvoroço e trás algum resultado positivo, por pressão de muitos profissionais do ramo e do próprio público. Mas mesmo isso não conseguiu dar uma definição ao termo, e até hoje os herdeiros dos criadores do Homem de Aço ainda lutam na justiça contra a DC para reaver os direitos sobre um personagem mundialmente conhecido e que rendeu uma imensa fortuna aos donos de seus direitos nessas décadas todas. Decisões recentes favoreceram a esposa e filha do finado Siegel, mas ainda há muita água para correr sob a ponte.
Esse livro foi lançado no Brasil pela Conrad em 2006, mas acabei só lendo-o há poucas semanas. Em parte por desconhecer o tema abordado até pouco tempo, não obstante o título “Homens do Amanhã” ser uma alusão a um dos primeiros apelidos do personagem Super-Homem. Porém, boa parte dessa culpa eu posso atribuir à capa do livro. Alguém poderia me fazer a gentileza de explicar a relação dessa capa com o tema? Tudo bem que a capa da edição americana não é exatamente um primor, mas está diretamente relacionada ao assunto do livro. Imagino quantos leitores este livro ainda não tem devido a esta capa, digamos, equivocada…
(o resto desse artigo sai amanhã, para vocês não se empanturrarem com tanta informação)
Uma Paranóia Patológica
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Quando o ranzinza Donald foi promovido a agente da CIA
Nos anos 50 o livro do psicólogo Fredric Wertham, “Seduction Of Inocent”, acusou os quadrinhos americanos de induzirem a juventude ao crime. Esse livro é inédito em português, e por aqui não trouxe maiores consequências diretas, não obstante esta mídia sofrer de todo tipo de acusação por aqui em décadas passadas. Mas guardadas as devidas proporções, outro livro publicado ao sul do Equador também demonizou os singelos personagens dos quadrinhos. Se o psicólogo alemão acusava Batman e Robin de viadagem, o Pato Donald virou instrumento de alienação das massas em prol do imperialismo americano no livro “Para Ler o Pato Donald – Comunicação de Massa e Colonialismo”, escrito no Chile em 1972.
O embrião do livro foi o seminário “Subliteratura e modo de combatê-la”, e os autores, o argentino radicado no Chile Ariel Dorfman e o belga Armand Mattelard, eram funcionário da Quimantú, antiga editora de quadrinhos Zig-Zag que fora estatizada por Salvador Allende. Usando da semiótica – e da grana do contribuinte chileno, diga-se de passagem – os dois então jovens autores empunharam a lupa ideológica para decifrar o significado oculto nos aparentemente infantis e inocentes personagens de Walt Disney. E o que descobriram foi uma conspiração engendrada pelo grande satã americano para alienar as massas e divulgar sub-sub-repticiamente a ideologia capitalista e pequeno-burguesa.
Por exemplo, o Pato Donald, o sobrinho do Tio Patinhas e que comumente é usado como mão-de-obra barata nas aventuras do seu tio sovina, é um agente do imperialismo, corruptor da inocência infantil e sexualmente pervertido, mas não por se abster do uso de calças, e sim porque sua família não tem pais ou laços de parentescos diretos, e ninguém sabe quem é filho de quem. E, claro, Tio Patinhas em suas viagens mundo afora em busca de riquezas e aventuras seria a essência do capitalismo selvagem, que invade as culturas dos países “subdesenvolvidos” para sugar suas riquezas materiais até o talo. Mas tem acusação pra todo mundo. Até o sortudo Gastão serve de exemplo de conformismo pequeno-burguês. Patópolis seria o próprio EUA, centro do mundo civilizado, e o “resto do mundo” seriam os países periféricos e em desenvolvimento, obviamente inferiores em relação à “matriz”. Nem os Irmãos Metralha escapam da condenação de não serem marxistas o bastante, já que querem expropriar o capital da classe dominante apenas para eles próprios se aburguesarem. Mas cá entre nós, mais comunista do que isso eu não posso conceber.
Pior que essa mixórdia já foi, e ainda é levada a sério. Eu mesmo fui apresentado a esta obra por um professor de OSPB (isso ainda existe?) no segundo grau, e numa primeira leitura foi como um choque, e me surpreendi com o significado oculto e, admito, até levei a sério essa grande conspiração de idiotização mundial. E logo achei que Walt Disney e Carl Barks ganhavam dólares diretamente da CIA para conceber ardilosas histórias. Tudo bem que durante a II Guerra Mundial, praticamente sob encomenda do governo americano, Disney produziu desenhos e criou personagens para simbolizar a política de boa vizinhança entre os países americanos, saindo dessa safra o galo mexicano Panchito e o papagaio malandro Zé Carioca. Mas daí a extrapolar que há todo um plano maligno para deturpar os valores das crianças do mundo, convenhamos, é dose difícil de engolir. Mas essa ideia foi muito popular nos anos 70 e 80. Mas como diria Freud, às vezes um charuto é só um charuto. E um ceticismo saudável é sempre bem-vindo. E analisando friamente, hoje podemos ver que essas ideias são apenas frutos de paranoia esquerdista e doutrinação marxista. Os autores apenas pegam das histórias os elementos que venham a corroborar suas ideias, forçando a barra nas interpretações e chegando a adulterar o significado dos quadrinhos, substituindo o texto original por outros mais convenientes à reforçar sua tese, o que não deixa de ser um estelionato intelectual.
E, na verdade, se extrapolarmos a percepção e forçarmos a barra, veremos conspiração e perversão em qualquer obra infantil. Um dos autores do livro, Ariel Dorfman, ainda escreveria “Super-Homem e seus amigos do Peito”, levando a mesma teoria aos heróis dos quadrinhos americanos. Em anos mais recentes, é comum vermos pastores mais exaltados afirmarem que os funcionários da Disney são tarados, homossexuais e maconheiros que enchem os desenhos com símbolos fálicos e mensagens de conotação sexual em suas produções infantis. Mas cá entre nós, quem vê pica em tudo que é canto é, no mínimo, suspeito…
Em cima desse mote, o sacana Ruy Goiaba parodiou a ideia central do livro chileno ao enxergar uma grande conspiração urdida por Maurício de Souza com seus personagens ao escrever “Para Ler a Turma da Mônica”, que inclusive já foi publicado na revista “Playboy”. Porém tem gente que leva a piada a sério e há poucos meses um artigo intitulado “Violência na Turma da Mônica” causou rebuliço entre os fãs dos quadrinhos ao tentar trazer significados negativos aos personagens de Maurício de Souza.
Mesmo que hoje muitos ainda comprem as ideias desse livro, que se encontra ainda disponível, só mesmo os esquerdistas mais xiitas poderiam levar tamanha teoria conspiratória a sério. No livro “Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano”, uma obra dedicada a descascar com sólidos argumentos e fina ironia o mito de que a culpa do subdesenvolvimento latino é pura e exclusivamente dos planos malignos oriundos do Primeiro Mundo, seus três autores dedicam algumas páginas à obra chilena, e procuram explicar o motivo do sucesso do livro “Para Ler o Pato Donald” entre os que ele intitula “idiotas latino-americanos”:
“..está escrito em clave paranoica, e não há nada que excite mais a imaginação de nossos idiotas do que acreditar-se objeto de uma conspiração internacional encaminhada para subjugá-los. Para esses desconfiados seres sempre existem uns ‘americanos’ tentando enganá-los, tratando de roubar-lhes seus cérebros, arruinando-os nos centros financeiros, impedindo-lhes de criar automóveis ou peças sinfônicas, intoxicando-lhe a atmosfera, ou combinando com os cúmplices locais a forma de perpetuar a subordinação intelectual que padecemos”
Acho que nem o Professor Ludovico falaria melhor
Super-Homem x Ku Klux Klan

A cultura ocidental ajudou a divulgar em filmes a figura da Ku Klux Klan, a organização racista americana. A Ku Klux Khan teve um início até inocente, quando uns ex-soldados confederados se reuniram sem maiores pretensões no Tenessee, mas a organização cresceu e assumiu um caráter conservador e intolerante contra os negros que conseguiram a liberdade após a conclusão da guerra. Açoites públicos, linchamentos, estupros e castrações espalharam o horror entre os negros, que passaram a temer os homens de capuz branco e as cruzes em chamas. Desde então, a organização passou por altos e baixos, com períodos de intensa atividade intercalados por momentos em que o grupo ficava nas sombras. Em 1872, a organização foi reconhecida como um grupo terrorista e foi perseguida pelo governo. Décadas depois, em 1915, o filme “O Nascimento de uma Nação” contava os primeiros anos da nação americana e fazia apologia da atividade dos homens da Klan, contribuindo para o seu ressurgimento. Até o início da II Guerra Mundial, a KKK esteve em plena ativa. Mas a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra, justamente contra nações que defendiam ideias semelhantes às da Ku Klux Klan, tirou qualquer viabilidade da organização se manter popular.
Mas uma enorme cruz em chamas foi vista pouco mais de dois meses após o final da guerra na encosta do Stone Montain, em Atlanta. Os homens de capuz branco estavam de volta à atividade, e escolheram a capital da Geórgia como sua nova sede.
O Herói do mundo real
Um jovem de trinta anos chamado Stetson Kennedy era natural de Atlanta, mas ao contrário de muitos de seus conterrâneos sulistas e seus antepassados, ele não concordava com o ideário racistas propagadas pela Klan, e se sentiu na obrigação de fazer algo para combater essa praga ao seu modo, escrevendo artigos para periódicos. Infelizmente, a KKK era apenas o braço armado e extremista de uma mentalidade arraigada na elite branca do Sul, e a retórica parecia ser insuficiente para combater a Klan.
Usando um nome falso e o fato de que um tio seu já havia sido um Klansman, Kennedy conseguiu entrar e se infiltrar no grupo local da Klan, logo se tornando parte dos Klavalheiros, que era a polícia secreta da organização. O que ele observou, de imediato, é que a maioria dos que faziam parte da Klan eram homens de pouca instrução e sem futuro profissional promissor. Logo ele se familiarizou com os rituais secretos e conheceu a identidade dos líderes locais. Na prática, a Klan agia apenas pelo fator intimidação, já que os linchamentos eram praticamente inexistentes, e os líderes usavam este poder para extorquir sindicatos locais, entre outras atividades criminosas envolvendo contrabando de armas e bebidas.
Com tais informações, Kennedy comunicou os delitos e as atividades da organização as autoridades, incluindo o procurador-geral e o governador, com detalhes que poderiam levar ao desbaratamento da organização e de suas atividades. Infelizmente nada surtiu maior efeito contra a KKK. Frustrado em seu intento, Kennedy resolveu pedir ajuda ao maior super-herói. Super-Homem iria usar seus músculos de aço contra a intolerância racial.
Chamem o Super-Homem
Mas antes que os leitores me acusem de ter bebido algo muito forte, vamos esclarecer. Kennedy percebeu que muito da força de uma organização secreta vem dos rituais e códigos cujo conhecimento era restrito aos iniciados. Muitos desses rituais observados por Kennedy eram até meio infantis.
Nessa época, o programa de rádio As Aventuras do Super-Homem era transmitido toda a noite, para deleite da garotada que acompanhava as aventuras do filho de Krypton. Kennedy resolveu usar este programa para levar a público os maiores segredos da KKK. Antes, Super-Homem já havia usado seus poderes contra Mussolini, Hitler e companhia. Os produtores do programa adoraram a ideia de Kennedy e, a partir das informações fornecidas, os roteiristas escreveram um mês inteiro de aventuras do Homem de Aço contra os homens de lençol branco. Veio à tona toda a estrutura e rituais dos Klans, e a crianças estavam brincando de Super-Homem contra KKK usando as mesmas palavras em código utilizadas pelos klansmem. Claro que os membros entraram em polvorosa quando viram seus rituais sagrados sendo usados como brincadeira de pirralhos. Senhas foram mudadas, e as novas foram imediatamente informadas aos roteiristas, que cuidaram de inseri-las nos programas seguintes. Ao final da aventura, é claro que Super-Homem prendeu e venceu seus inimigos.
E no mundo real os efeitos foram ainda mais devastadores. As reuniões seguintes tiveram presença próxima de zero, e ninguém mais se interessou em se vestir de capuz branco. Mesmo sem destruir a Klan em definitivo, a ação de Stetson Kennedy e a ajuda do Super-Homem foram o principal fator que impediram o ressurgimento da Klan no período pós-guerra.
O Namoro Conceitual Entre Cinema e Quadrinhos
Nota: Este texto foi mais um dos que publiquei nos tempos do Busilis, para participar do Carnaval de Quadrinhos das Quartas, cujo tema era cienma e quadrinhos. Ao invés de falarmos sobre uma adaptação específica, resolvemos abordar, de um modo geral, o uso da linguagem dos quadrinhos no cinema.
O flerte entre artes é algo comum, principalmente entre cinema e outras artes. Com o advento do cinema foi pura questão de tempo para que clássicos da literatura universal fossem levados às telas, e até hoje livros clássicos ou best-sellers do momento são transpostos à tela grande. Com quadrinhos a relação poderia ser até mais íntima, já que ambas utilizam essencialmente uma linguagem visual. Não obstante, mesmo sendo duas artes que nasceram praticamente ao mesmo tempo (fins do século XIX) e com o aspecto visual em comum, nem sempre se considerou a relação entre ambas como algo legítimo ou com status digno de arte, já que nos EUA em questão de décadas o cinema se tornou lucrativo e respeitável, bem antes dos quadrinhos. Estes demoraram bem mais a ganhar reconhecimento na terra do Tio Sam, apesar de serem uma fonte de lucro desde seus primeiros anos. Mesmo que nos anos 40 vários personagens de quadrinhos e pulps tenham sido levados às telas em formato de seriados, isso estava longe de ser algo considerado “artístico” realmente. Pelo contrário, quase ninguém via algo além do que diversão barata e descartável nas comics. Na verdade, a relação cinema-quadrinhos tinha um quê de clandestino, como um encontro entre amantes às escondidas num motel barato. E isso piorou quando, nos anos 50, os quadrinhos americanos sofreram perseguição e censura sob a alegação de que influenciavam negativamente os jovens.
Mas como levar a sério uma arte conhecida como “comics”? Pelo menos isso não foi problema em outros países, onde os quadrinhos tinham outro nome que não remetia a algo pouco sério. Na Europa, nos anos 60, os quadrinhos já começaram a ser direcionados a um público mais maduro e se tornar uma arte mais séria. E antes dos “comics” americanos ganharem seriedade sob o nome “Graphic Novel”, outros cineastas estrangeiros assumiam sua relação com a chamada nona arte. Para citar dois ícones do cinema, Akira Kurosawa e Frederico Felini conheciam os quadrinhos e sua linguagem característica, e ambos usavam o recurso de storyboard, que é o desenho em sequencia das cenas a serem filmadas. Aliás, consta que os dois diretores desenhavam os próprios storyboards. Fellini em especial era confesso admirador dos quadrinhos. Uma de suas aspirações era transpor o personagem Mandrake, de Lee Falk, para as telas. Mesmo não sendo possível, Fellini deu seu jeito, transformando Marcelo Mastroiani em Mandrake durante uma cena do filme “Entrevista”. Outra de suas frustrações também rendeu outra bela obra: “Viagem a Turim”, o álbum belamente desenhado por Milo Manara, é baseado em um roteiro não filmado de Fellini, tendo ele e Mastroiani como personagens da história.
Um Círculo Virtuoso
Sabemos que nos States os quadrinhos começaram a ser levados a sério realmente em fins dos anos 70 e no decorrer da década de 80. Antes disso um dos únicos artistas que via o potencial dos quadrinhos praticamente desde seu nascimento, Will Eisner, procurava transcender o lugar-comum do gênero. Uma de suas obras-primas, “Spirit”, já era uma aplicação da linguagem do cinema nos quadrinhos, já que os enquadramentos, closes e seqüências que Eisner usou nessa e em outras obras são realmente cinematográficas. O próprio personagem, mesmo sendo um herói mascarado, estava mais para um Phillip Marlowe do que para o Super-Homem ou Batman, sendo inspirado nos filmes Noir que surgiram nos anos 30 e 40, por sua vez adaptados dos livros policiais de Dashiel Hammet e Raymond Chandler. Por tabela, a arte de Eisner influenciaria muitos desenhistas, e um seguidor do estilo de Eisner é Frank Miller, que desenhou e escreveu “Batman – O cavaleiro das Trevas”, um divisor de águas do gênero. Miller utilizou como recurso narrativo usar a TV e programas jornalísticos dentro da história como contraponto narrativo, complementando a trama, algo que já era visto na série “American Flagg!”. Tal recurso foi utilizado por Paul Verhoeven em “Robocop”, de 1987. Tanto que Frank Miller foi convidado para ser roteiristas das duas seqüências do filme. Infelizmente o resultado não foi tão bom quanto uma boa história de Miller, já que seu roteiro não foi integralmente aceito, sendo modificado e mutilado, e isso afastou Frank Miller de Hollywood quase que em definitivo.
Escaldado das sandices de Hollywood, Frank Miller dificilmente se envolveria no projeto de um outro filme. Mas o comparsa de Quentin Tarantino, Robert Rodriguez, estava decidido a levar a série Sin City, também inspirada no cinema Noir, da maneira mais fiel possível, e estava decidido a enfiar Miller no projeto de todo jeito. Mas para convencê-lo, Rodriguez teve que filmar uma sequencia de cenas e mostrar a Frank, que gostou tanto que acabou se tornando co-diretor do filme que adaptou quatro histórias da série em quadrinhos. “Sin City- A Cidade do Pecado” é um marco na relação cinema-quadrinhos, pois é a mais fiel adaptação já levada às telas. Não só fiel à história, mas o que se vê na tela é uma transposição literal do que se vê nos quadrinhos.
Com o sucesso de “Sin City”, outro trabalho de Miller sofreu o mesmo tratamento para ser transposto “ipsis literis” para a tela. Em “300″, a maioria das cenas foram levadas como estavam nos quadrinhos, com a fotografia lembrando os tons pastéis das aquarelas de Lynn Varley. A história foi um pouco alterada pelo diretor Jack Snyder, não a deixando tão literal quanto “Sin City”, mas o resultado em termos de transposição é quase o mesmo. E com Miller de volta aos cinemas, o ciclo iniciado com Will Eisner se fechou, de certa forma, pois Frank Miller adaptou o personagem “Spirit” para um longa-metragem lançado no inicio de 2009.
A propósito, para finalizar essa referência ao mestre Eisner, o cinema nacional já lhe rendeu uma bela homenagem no filme “Cidade Oculta”, de 1986, que mesmo com nossos recursos limitados, é claramente inspirado no universo de personagens de “Spirit”.
A Vingança dos Nerds
No decorrer da década de 80 e 90, diretores que assumidamente liam e entendiam de quadrinhos e cultura pop em geral foram aos poucos “saindo do armário”. Anos antes do “boom” das adaptações cinematográficas dos quadrinhos, o diretor Sam Raimi fez a melhor adaptação de um personagem de quadrinhos até então: “Darkman – Vingança sem Rosto”. O detalhe é que esse personagem não existia nos quadrinhos, mas a linguagem adotada e o personagem eram comics puro, e nesse filme ele mostrou o quão viável era transpor a linguagem das HQ´s para as telas. Tanto que, muitos anos depois, Sam Raimi se tornaria diretor da franquia baseada em quadrinhos mais bem-sucedida dos anos recentes: o Homem-Aranha. Outro diretor “nerd” é Kevin Smith seguiu um caminho inverso ao de Frank Miller, começando a escrever para o cinema para depois ir aos quadrinhos. O ex-balconista já escreveu diversos filmes, como “O Balconista”, “Procura-se Amy”, “Barrados no Shopping”, “Dogma” e “O Império do Besteirol Contra-Ataca”. Grande conhecedor de cultura pop, Kevin usa e abusa de citações a esta cultura, incluindo os quadrinhos. Tanto que dois dos personagens que aparecem com freqüência em seus filmes é uma dupla de criadores de comics, vividos por Ben Afleck e Jason Lee. Há até a aparição do próprio Stan Lee em “Barrados no Shopping”. Essa bagagem lhe credenciou a escrever um roteiro para um filme do Super-Homem, baseado nas sagas “A Morte do Super-Homem” e “O Retorno do Super-Homem” em 1997. Caso as ideias de Kevin realmente se realizassem, o resultado seria um senhor filme baseado em quadrinhos. Mas o diretor Tim Burton e os produtores tentaram mutilar o roteiro e descaracterizar tanto o personagem que, por obra e graça divina, o projeto nunca saiu do papel. Depois Kevin Smith escreveria alguns roteiros de quadrinhos, como a série “Demolidor” e uma minissérie do Homem-Aranha e Gata Negra.
Quentin Tarantino, que surgiu no meio dos anos 90 como grande promessa criativa do cinema americano, é outro diretor que adora citar a cultura pop em seus trabalhos, abrangendo desde música até filmes de ação dos anos 70, passando, obviamente, por quadrinhos. Um de seus primeiros roteiros, que resultou no filme “Amor à Queima-Roupa”, tem como personagem um balconista de comic shop que se envolve com uma prostituta e se envolve em uma violenta jornada, lembrando bastante os quadrinhos de “Torpedo”. Seu pitaco (não creditado) no roteiro de “Maré Vermelha” enfiou o inusitado diálogo de dois marinheiros do submarino USS Alabama brigando pra decidir qual Surfista Prateado seria o melhor, o desenhado por Moebius ou o original de Jack Kirby. Mas sua maior influência dos quadrinhos é vista em “Kill Bill”, cujas cenas remetem à violentos mangás e animes, além dos filmes de artes marciais de Honk-Kong.
Outro grande exemplo de filme influenciado por quadrinhos é o desenho em CGI da Pixar, “Os Incríveis”. Mesmo não adaptando nenhum personagem existente em comics (apenas se inspirando no Quarteto Fantástico), o longa é uma grande homenagem aos super-heróis dos quadrinhos, usando e parodiando os clichês e situações, e aborda um tema que já é comum nos quadrinhos: o medo da população aos super-poderosos e a necessidade de controlá-los ou registrá-los, algo visto sob vários enfoques em obras como “Watchmen”, “Batman – O Cavaleiro das Trevas” e mais recentemente na saga da Marvel “Guerra Civil”. É hilária as observações da estilista de uniformes, Edna Moda, ao desaconselhar o uso de capas nos trajes dos super-heróis.
M.Night Shyamalian, após o sucesso de “O Sexto Sentido”, escreveu e dirigiu “Corpo Fechado” em 2000, que nada mais é do que a transposição da clássica história de super-herói mas com uma linguagem e abordagem mais dramática. Está tudo lá: a descoberta casual dos poderes, a tragédia pessoal do herói e até o arqui vilão, só que de uma forma que foge aos padrões quadrinísiticos. Mesmo não sendo tão bem compreendido pelo público não iniciado nos quadrinhos, não deixa de ser um exercício criativo interessante. Uma série de sucesso que segue essa fórmula é “Heroes”, que atualmente está em sua quarta temporada.
E hoje, com tanta adaptação sendo levadas às telas do cinema, a linguagem dos quadrinhos está se tornando mais popular, conhecida e utilizada, e a relação cinema-quadrinhos está abençoada e santificada, de papel passado e legitimada. Com uma geração de diretores e roteiristas que realmente curte e entende de quadrinhos, bem como de roteiristas e desenhistas que conhecem e eventualmente se inspiram no cinema, ambos podem entrar pela porta da frente sem precisar para encontros mais clandestinos.
Manual do Escoteiro Mirim x O Guia do Mochileiro das Galáxias

Para a geração atual que elevou o google à condição de oráculo universal, anos, quiçá décadas antes, já havia algo que funcionava tão bem quanto o google para se descobrir como se pede um caldo de cana em aramaico ou para saber o caminho mais curto para Alpha Centauri. Estamos falando de dois livros fantásticos da cultura popular. Um deles é o “Manual do Escoteiro Mirim”, sempre presente nas mochilas de Huguinho, Zezinho e Luizinho, e o outro é o “Guia do Mochileiro das Galáxias”, ferramenta deveras útil que dá título a série de livros de Douglas Adams que narra as aventuras e desventuras do último terráqueo, Arthur Dent. Esqueçam o Google. Mas qual é o melhor dos dois? Vamos a um breve comparativo…
Para quem leu as clássicas histórias do Tio Patinhas escritas por Carl Barks, sabe que a maioria das buscas do velho pão-duro em busca de tesouros escondidos em cidades perdidas no meio do nada se originaram de alguma informação contida naquele livrinho carregado por Huguinho, Zezinho e Luizinho. E de tão alegre, o pão-duro Tio Patinhas sempre dobrava sua contribuição anual aos Escoteiros. Mas como o dobro de nada continua nada…
E quando a aventura propriamente dita começa, a família Pato sempre se mete em enrascada. Como eles não são parentes de Jack Bauer, não apelam para a violência, senão os Metralhas estariam mortos desde os anos 50. Sempre utilizando de saídas inteligentes e engenhosas, os sobrinhos de Donald apelam para o pequeno livro quando todos estão metidos em algum rabo-de-foguete. E praticamente em todas as situações o livrinho tem uma resposta útil, seja para encontrar alguma passagem secreta em algum castelo em ruínas, aprender a pilotar naves extraterrestres ou saber qual a dieta mais indicada para unicórnios. E (quase) sempre o Tio Patinhas enche os cornos de ouro e os escoteiros colecionam mais medalhas de honra ao mérito.
Segundo as lendas de Patópolis (não confundir com Patos, na PB), esse livro foi escrito originalmente pelos guardiões da Biblioteca de Alexandria e descoberto pelo fundador da cidade, Cornelius Pato, cujo filho teria fundado os Escoteiros-Mirins para protegerem este livro. Nesses tempos em que o Universo Disney está prestes a se fundir com o Universo Marvel, talvez venhamos a saber se o Manual dos Escoteiros também conterá informações definitivas sobre o passado de Wolverine, de como reconhecer um Skrull disfarçado de herói ou saber como o Surfista Prateado satisfaz suas necessidades fisiológicas… A dúvida é saber como diacho cabe tanta informação em um livrinho do tamanho daqueles livros “Sabrina”…
Ao menos esse não é o problema de nosso outro livro, o “Guia do Mochileiro das Galáxias”, já que ele é um dispositivo eletrônico multimídia em forma de livro e é constantemente atualizado, sendo o companheiro de aventuras de Arthur Dent e Ford Prefect pelos locais mais estranhos do universo. Se o lema dos escoteiros é “sempre alerta!”, a frase estampada na capa do guia é “Não Entre em Pânico”, mesmo que você esteja flutuando no vácuo sem proteção alguma ou que seu planeta natal seja obliterado em minutos. O “Guia do Mochileiro das Galáxias” é o mais famoso repositório de conhecimento universal, superando em vendas a “Enciclopédia Galática”, até porque é bem mais barata, e é um dos livros mais vendidos da galáxia, superando outros tomos úteis como “A Enciclopédia Celestial do Lar” e “Mais 53 Coisas Para se Fazer em gravidade Zero”, contendo o conhecimento coletado por diversos “mochileiros” espalhados pelo universo afora, que prestam serviço para a Companhia Cibernética Sírius, aquela composta por “um monte de babacas que serão os primeiros a irem para o paredão quando a revolução estourar”. E um desses mochileiros é o filho do planeta Betelgeuse, Ford Prefect, que só conseguiu uma carona para escapar da Terra pouco antes dessa ter sido removida do Universo para dar passagem de uma via expressa hiperespacial. Outro conselho utilíssimo desse guia é o de sempre portar uma toalha, objeto de muita utilidade para qualquer mochileiro, e a única coisa que você precisará quando o universo der tilte. Além de informar a respeito de milhões de planetas e plagas inter-espaciais, traz dicas muito relevantes, como a receita do famoso drinque chamado Dinamite Pangalática a partir de aguardente Janx, bem como do endereço completo das ONGs que lhe ajudarão a se recuperar da ressaca. Também dá para descobrir locais interessantes, como o Restaurante no Fim do Universo. Só não tem a resposta para a pergunta fundamental sobre a vida, o universo e tudo o mais. Aliás, nem a pergunta, já que todo mundo sabe que a resposta é “42″, mas não se sabe exatamente qual a pergunta correta…
Ironicamente, as edições mais antigas do “Guia…” não trazem muitas informações sobre a Terra, sendo seu maior ponto fraco. Aliás, a única informação disponível por muito tempo sobre o planeta azul se resumia a palavra “inofensiva”. Após uma atualização do guia, a informação se tornou mais completa: “praticamente inofensiva”. Elucidador pra cacete…
Mas um defeito em ambos os guias é a ausência de referências ou maneiras de se encontrar um puteiro em cidadezinhas do interior, algo deveras útil para alguns mochileiros e eventuais turistas acidentais. No caso do “guia…”, talvez até ajude nesse quesito, desde que você queira putas com três seios em algum cafundó do outro lado da galáxia de Andrômeda. E o “manual do Escoteiro…” nem pensar, senão seria “manual do escroteiro”. No máximo pode indicar algum tesouro escondido nas ruínas da Casa da Mãe Joana, em Avignon
Mas para isso você não precisa nem de um nem de outro. Mesmo que não seja uma informação que seja divulgada nos classificados do jornalzinho ou difusora da cidade, dá pra descobrir sem maiores dificuldades. Mas também pega mal sair perguntando aonde as putas trabalham pro primeiro transeunte da cidade. O método infalível para se descobrir discretamente a localização da “casa de favores” em qualquer cidadezinha é simples e rápido: passeie descompromissadamente pela cidade até encontrar o padre da paróquia. Puxe conversa, e sem mais nem menos, pergunte onde fica a igreja, informação a qual ele responderá prontamente. Aí complete:
- Ah, então a igreja fica perto da rua do cabaré?
- Nããão! O cabaré fica do outro lado da praça, na primeira rua à esquerda.
- Obrigado, padre!
Isso nunca falha.
Uma Breve História dos Catecismos

Sacanagem é um negócio deveras lucrativo e quase sempre com retorno garantido, em qualquer mídia. E em quadrinhos não seria diferente. Hoje em dia há uma infinidade de opções de álbuns com temáticas eróticas ou até pornográficas. Como europeu já levava a sério quadrinhos há muitas décadas, até a sacanagem ganha status de arte. O melhor exemplo são os álbuns desenhados por Milo Manara, com suas belas e sensuais personagens magras, de bundinha arrebitada, olhares lânguidos e narizes minimalistas, com muito amor pra dar. E outra beldade é Drunna, cujo rabo sensacional desenhado pelo italiano Paolo Eleuteri Serpieri são um espetáculo da nona arte safada, o estado-da-arte na putaria.
Porém, vendo esses álbuns de luxo vendidos livremente em livrarias e bancas especializadas a um preço nem sempre tão acessível à maioria da população que (sobre)vive de salário mínimo, lembrei dos bons tempos no qual quadrinhos “de sexo explícito” não tinha o status de arte respeitável, ao menos aqui no Brasil, e ser pego com um exemplar desses seria equivalente a ser apanhado por sua vizinha sexagenária e fofoqueira saindo de um cinema pornô no centro de São Paulo.E se fosse de menor, aí é que o bicho pegava. Mas independente disso, a juventude de muito marmanjo foi devidamente acalentada por quadrinhos pornográficos, a maioria considerada de gosto duvidoso e malvista por pais e defensores da moral. Entre fotonovelas pornográficas e revistas masculinas estilo “Playboy”, haviam os quadrinhos, alguns conhecidos por “catecismo”, geralmente com desenhos em preto e branco. E é desses quadrinhos, em especial, que me peguei lembrando há poucos dias. Não se aprendia a rezar com esses catecismos, e sim a ver e fazer coisas que até o capeta duvidaria.
John Constantine – Um Patife dos Diabos
publicado originalmente em 13/03/2005
Vamos falar aqui de um mago inglês. Mas não se preocupem que não é o Harry Potter. Aliás, a única coisa em comum entre Harry Potter e o nosso personagem é a nacionalidade e o hábito de lidar com o metafísico. Mas fora estes aspectos, há diferenças abissais entre ambos.
Em época em que o mago mais famoso é um rapaz que usa óculos e é bem comportado, já existe a uns vinte anos um outro mago que não é um garoto, fuma e bebe desvairadamente, seu caráter é um tanto flexível e são poucos os seus amigos que sobreviveram a esta amizade para contar suas historias. Estamos falando de John Constantine.
O jovem de Liverpool não era exatamente um exemplo de bom moço. Meteu-se com drogas e arruaças, mas o que realmente mudou a sua vida foi o flerte com a magia negra. E tudo começou na cidade de Newcastle, quando ele e seus amigos tentaram usar de magia negra para enfrentar um demônio que possuía uma garotinha chamada Astra. Ele consegue acabar com o demônio, mas invoca outro pior, chamado Nergal, que reinvidica a garotinha ao inferno. Constantine tenta salvar a menina das garras de Hades, mas escapa do inferno apenas com um dos braços dela. Ele acaba internado como louco, e seus amigos são amaldiçoados pelo demônio, e cada uma acaba caindo em desgraça ao longo de suas vidas.
Mas o arrogante mago inglês não deixaria barato, e ao longo de suas aventuras no mundo do ocultismo, acaba reencontrando o demônio Nergal e se vingando dele. Mas, como em todas as suas histórias, suas vitórias são de Pirro, já que sempre sai com um gosto amargo e por que aqueles que ele usa para atingir seus objetivos morrem de forma pouco agradável, o que torna o personagem mais cínico, pois perde muito de seus amigos desta forma.
American Flagg!

Um precursor dos quadrinhos adultos americanos
Desde idos dos anos oitenta que os fãs de quadrinhos sabem que houve um processo que deixou as histórias em quadrinhos do mercado americano mais maduras e com histórias realísticas e personagens moralmente dúbios. As obras citadas como divisão de águas normalmente são “Watchmen”, “Batman – O Cavaleiro das Trevas” e “Sandman”. Mas antes dessas obras, uma editora já produzia revistas com histórias que já possuíam essas características.



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